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Genialidade, precocidade, temperamentalismo... Nenhum outro compositor traz à mente tantos clichês sobre a música clássica quanto Mozart.

A história da música cristalizou o mito do menino-prodígio explorado pelo pai, como uma espécie de Michael Jackson do século 18, primeiro músico-mirim de que se tem notícia, garoto que não teve infância, exibido em troca de dinheiro pelas cortes européias, como uma aberração do showbiz da época, fosse alardeando seu ouvido absoluto em "adivinhações" de notas ou tocando com os olhos vendados.

Depois, sobrevieram as dificuldades de sua vida como compositor de encomenda, sempre na dependência da boa vontade de seus patrocinadores, atribulado por apertos financeiros e sem nunca atingir em vida reconhecimento à altura de seu talento. Por fim, sua morte miserável, e, o cúmulo da desgraça, seu enterro em vala comum.

Diz-se que aos três anos ele já tocava piano, aos cinco já havia começado a compor e aos 12 já havia completado a primeira de suas 20 óperas. Para se ter uma idéia, Beethoven, outro nome emblemático da música clássica, compôs uma única ópera em sua vida, "Fidelio", aos 35 anos, idade com que Mozart morreu. Nessa altura, ele já havia composto algo em torno de 600 obras, entre sinfonias, cantatas, concertos e sonatas para piano, entre outras peças.

Muito dessa imagem um tanto romanesca do compositor, no entanto --que deve muito ao sucesso do filme "Amadeus" (1984), de Milos Forman (baseado em peça de Peter Shaffer)--, parece hoje, fruto de imprecisões na interpretação de fatos históricos, erros na leitura das correspondências de Mozart, ou resultado da empolgação de biógrafos "fãs", como Stendhal e Puchkin.

Pelo que se sabe atualmente, é provável que o músico não tenha morrido na miséria, e que seu funeral simples fosse a norma da época. Parece também que os apelos dramáticos por dinheiro, feitos em carta a amigos e patrocinadores, tenham sido fruto de sua vontade de levar uma vida mais luxuosa e não de suas necessidades de subsistência.

Seja como for, a revisão da biografia de Mozart, mesmo reduzindo o contexto "fabuloso" de sua vida, não embaça o brilho e o mistério que cercam o compositor. Ela não explica, por exemplo, sua verve criativa inigualável na história da música, ou a longevidade de sua obra.

A revisão do mito mozartiano também não explica a extraordinária maturidade que o músico aparenta ter em obras de extrema complexidade emocional, compostas bem antes dos 30 --o que torna o personagem ainda mais intrigante, já que, ao que parece, ele era emocionalmente imaturo, e faz lembrar a afirmação do ator Lawrence Olivier sobre o Hamlet de Shakespeare: de que para interpretá-lo, era preciso ser um adolescente com a alma de um velho.

Aos 250 anos, a vida de Mozart pode permanecer em muitos aspectos nebulosa. Seu gênio musical, no entanto, se conserva com frescor e clareza numa variedade de gêneros e sentimentos: na delicadeza de "Voi Che Sapete", de "As Bodas de Fígaro"; na malícia ingênua da serenata de "Don Giovanni"; na melancolia da "Fantasia" para piano em ré menor; no sentimentalismo melodioso do concerto 21 para piano; na energia da sinfonia "Júpiter", só para citar algumas de suas centenas de composições.

Em comemoração ao aniversário de um quarto de século de seu nascimento, 2006 verá programações especiais que tomarão conta do calendário de música clássica, com obras do compositor que melhor encarnou o mito do menino que não envelhece.
ANTONIO FARINACI
Editor de Música
Fonte: Uol Música


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